Técnica do playback theater é aplicada nas empresas para dar voz aos funcionários e melhorar a comunicação.
Por Rômulo Martins
“A palavra pertence metade a quem a profere e metade a quem a ouve.” Quando o escritor e ensaísta francês Michel de Montaigne escreveu isto o mundo passava por grandes transformações, agitadas pelas navegações e pelos novos ideais que ameaçavam o controle da Igreja Católica. O contexto é bem diferente, mas quando o assunto é gestão de pessoas, ainda hoje, a dificuldade encontrada por muitas empresas concentra-se em dar oportunidade para os colaboradores exporem seus pontos de vista. Em contrapartida, as instituições recorrem a treinamentos e a outros tipos de ferramentas para garantir um ambiente mais participativo.
Os canais utilizados pelas organizações para instigar os funcionários a manifestarem suas opiniões podem ser diversos. A consultoria de Recursos Humanos Brasilis Playback Theatre emprega a arte para induzir as pessoas a falarem de si no meio corporativo. “Seja em uma reunião ou em um evento empresarial, nem sempre o funcionário tem oportunidade de se fazer ouvir. Através do playback theatre é possível dar voz a quem fala pouco ou não tem muita oportunidade para se posicionar. Em 1h30 as histórias contadas no palco refletem a opinião de um grupo”, afirma Mario Moura, fundador e diretor da Brasilis.
O playback theatre é uma técnica teatral de improviso criada em 1975 por Jonathan Fox em Nova York. As histórias são baseadas na plateia e contadas por ela própria e, logo depois, são encenadas por atores. De certa forma, esse instrumento vem para questionar os modelos de gestão que exaltam a rapidez e muitas vezes impedem que as pessoas ouçam seus colegas de trabalho, resultando em falhas na comunicação.
Dentre outros benefícios, Moura destaca que a técnica do playback theatre auxilia na comunicação, nos processos de gestão de mudanças e na superação dos desafios no ambiente empresarial. Ainda que o trabalho desenvolvido pela Brasilis seja de improviso, seu diretor teatral afirma que o contato com a área de Recursos Humanos é imprescindível para a definição do foco da apresentação e da temática a ser abordada no palco: “São os Recursos Humanos que farão a ponte para o nosso trabalho acontecer”.
Sutil e estratégicaMoura explica que a Brasilis não dispõe de ferramentas para mensurar os resultados de suas apresentações: “Nossos clientes são os nossos melhores vendedores”. Contudo, para ele, a técnica do teatro de improviso aplicada nas organizações proporciona um alto grau de absorção do conteúdo encenado no palco que, de algum modo, será útil na gestão de pessoas. “Não há nesse tipo de treinamento um trabalho, por parte do colaborador, de ter de apreender algo [o que diferencia a atividade dos treinamentos convencionais]. Existe uma mensagem que fica na subjetividade de cada indivíduo”, diz.
Segundo o diretor de teatro, a cobrança por resultados por parte das empresas impulsiona os profissionais a se arriscarem mais e a exporem suas ideias, no entanto, ele pondera que isso deve ser feito de modo a não gerar conflitos ou prejudicar o clima organizacional. Nesse sentido, a técnica do playback theatre acaba sendo uma aliada para o colaborador que quer ser ouvido sem ser depreciado. Parece ser uma forma sutil e estratégica de gerar reflexão, apontar caminhos, estimular a mudança nas corporações.